A questão da Mente é muito interessante, e é importante lembrar que dependendo do paradigma, das crenças de quem escreve, a Mente é algo diferente. Aqui, como estamos tratando pela Filosofia à Maneira Clássica, o método é o Estudo Comparado, que é estudar o que dizem vários autores e procurar o que há em comum na análise e explicação deles. Pra isso, vou colocar o pouco que sei, pois é tudo o que posso por enquanto. Se você quiser contribuir, será ótimo!
Primeiro vamos localizar a tal Mente. Os Gregos diziam que o ser humano é constituído de três “partes”: Soma, Psique, e Nous. Pra facilitar, lembre-se do conceito de Psicossomático; algo que, a partir da Psique, reflete no corpo material. Então já temos entendido que Soma é relativo ao corpo material, e Psique… Bom, vejamos o Nous antes pra entender o meio-termo. Nous seria um conhecimento superior, uma inteligência pura, a intuição, a compreensão total das coisas, aquilo que Platão chamava de Mundo das Ideias, onde se encontram os arquétipos, as coisas de natureza divina! Nuossa, coisarada, né?! É! …
A Psique ficaria entre esses dois mundos, o material e o das ideias, o ideal. Daí que a mente seria o instrumento que nos possibilita relacionar as coisas divinas às materiais. Até poderíamos falar de Arte agora, enquanto a realização material de conceitos ideais. Só pra não deixar isso flutuando por aí, pensemos que a Arte legítima é aquela que “eleva o coração” de quem a experimenta. Por exemplo, eu tive sensações inexplicáveis quando fui à exposições de Picasso e de Salvador Dali. Também aconteceu quando assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, ou mesmo Irmão Sol, Irmã Lua. Tomara que você já tenha passado por algo parecido. Tá, então a Mente seria o nosso instrumento de ligação entre o mundo material e o mundo perfeito.
Segundo estudamos na escola, os Hindus diziam que o ser humano é constituído de sete “corpos”, e não três, como entendiam os Gregos. É importante lembrar que não há certo e errado por serem descrições diferentes, pois estão falando da mesma coisa, que aí está e sempre é. Toda a Ciência é assim, todo mundo estudando a mesma coisa, a Natureza, tentando explicá-la de alguma maneira. O problema é… peraí, já falamos disso. Então, os Hindus entendem que temos sete corpos, o Material, o Vital, o Emocional, o Racional, o Inteligente, o Intuitivo, e o Mágico. Os dois primeiros seriam o Soma grego, os dois próximos estariam para a Psique, e, adiante, o Nous.
Tá, agora aos “problemas”. Como os corpos superiores, do Nous, são por natureza abstratos, subjetivos, não são facilmente medidos, descritos em números, ou testados pela ciência atual. Calma, já explico. Como estão para além da matéria física, seus estudos podem ser chamados de Metafísicos. Como vimos, a Mente serviria como passagem do mundo divino ao material, e daí pode ter vindo o Racionalismo, que dizia que o ser humano poderia entrar em contato com Deus, com a Verdade, somente pelo uso da razão. Será que isso está errado? Eu acho que não. Porém, colocando dessa maneira, os corpos superiores, o Nous grego, foram deixados de lado, já que ninguém os entendia mesmo. É aí que o problema aumenta. Com a Mente se estudam as coisas, e só considerando o que podia ser medido pela Matemática, a Ciência se foca no mundo material. E aí aparece o tal Positivismo, e o que não é material “não existe”, e tudo vira objeto de investigação e, com isso, controle. Só que as coisas não funcionam assim. Exemplo, lembra quando estudamos Física no colégio, onde as contas desprezavam o atrito, ou Em Condições Ideais? Pois é, a conta dá certo, mas na prática não bate, por que o atrito e a resistência do ar existem! Assim, sem considerar os corpos superiores, a conta dá certo, mas ficam lacunas, “elos-perdidos” nos estudos científicos.
Localizada a Mente, vejamos o que temos sobre ela. Somos animais racionais, ou homo sapiens. Muito bem. Razão entre dois números é a relação entre eles. Isso quer dizer que nossa mente relaciona as coisas que conhecemos e tira conclusões. Foi Aristóteles que começou a querer entender como funcionava esse processo de relacionamento na Mente, e criou a chamada Lógica. A Lógica seria um instrumento da Mente para relacionar as coisas e pensar. Agora, se cada um tem impressões diferentes das coisas, o resultado dessas relações será diferente. Mas como assim? Ué, gosto é como nariz, cada um tem o seu :)
Mas, mas… é que a Mente precisa dividir as coisas pra poder relacioná-las. Claro, seria impossível relacionar um coisa só com nada. Um sobre zero? Taí o motivo de não entendermos o tal infinito, ou o conceito de absoluto, aquilo que Tudo contém. Eu disse Tudo, tê-o-tú-dê-o-dô, Tu-do! O Um sem Outro, pois se houvesse Outro, faria parte do Um. Diz aí, dá pra fritar um peixe na testa já? Hehe.
Bom, mas se a Mente divide o Todo em partes – uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa – temos que dar nomes pra elas. Cavalo, estrela, saudade, vazio, pé, Taís, lobo, beleza, beijo, são palavras que usamos pra entender as coisas divididas. Mas daí temos que concordar no que cada palavra quer dizer. Defina Ilha: uma porção de terra cercada de água por todos os lados! Defina Porção. Ahhhh! Defina Água. Defina Lado. Definir é dar fim, limites. Limitar conceitos com outros conceitos, que também precisam ser definidos! Mas, mas! É, essa é a fantasia da linguagem! Dá pra entender por que se discute tanto nessa vida? Pois é, a Mente usa palavras feitas de conceitos para pensar. A área da ciência que estuda o processo de significação é a Semiótica. Pode gritar um palavrão, se quiser!
Muito bem, vamos mais de leve agora. Respire fundo, enchendo do peito até a barriga e sinta o ar passando pelo umbigo. Mande o ar pra fora, passando pela coluna vertebral. É bom! Pode repetir quantas vezes quiser.
Pra finalizar, vejamos o ponto fraco disso tudo. A fraqueza desse processo é que o processo de significação, essa associação de conceitos e valores, depende daquilo que conhecemos. Se no corpo material somos aquilo que comemos, no corpo psicológico somos a informação que recebemos. Tá, tudo bem, e por quê isso é um ponto fraco? Por que os meios de comunicação de massa, a propaganda, os noticiários, os bons de papo, fazem e apresentam associações de valores por nós! Como assim? Abra a felicidade: Coca-Cola! Magazine Luíza, Vem ser feliz! Ahf, até o português é errado. Crack, nem pensar! Agora, não pense num macaco azul. Ahf. Cerveja = praia, mulher bonita de biquini… Entendi isso quando estava há dois anos sem assistir televisão. Um belo dia, com visita em casa, que queria assistir a novela, vi o personagem, que havia morrido, no “paraíso”, um campo de lírios. No dia seguinte, alguém falou sobre o paraíso, e o que foi que eu vi? O campo de lírios global!
Então, não é a Mente que é má ou ruim. Ela é um instrumento que deve ser alimentado de coisas boas, deve-se usar a crítica consciente para não deixá-la concluir maluquices baseadas na nossa própria ignorância. Não dá pra pensar sobre algo que não sabemos. Não se pode acreditar em verdades definitivas, a não ser a sua própria, que é do tamanho do seu conhecimento. Tendo isso em mente, entenderemos o socrático Só sei que nada sei. No caso, o homem mais sábio da Grécia, exatamente por que sabia disso!
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